Sobre sistemas de disputa e outras coisas.
Vou começar sendo muito claro. Eu não gosto de “pontos corridos”. Sou a favor do chamado “mata-mata”. Eu já estava meio desconfiado disso lá em 2003, e após todos esses anos suportando o tal Brasileirão sendo disputado por pontos corridos posso afirmar: Não existe disputa mais chata e sem graça do que um campeonato de futebol por pontos corridos. E digo isso de qualquer deles, seja o inglês, o italiano, o espanhol ou o brasileiro.
Para expor minha tese vou fazer um exercício de recordação: Como eram as coisas naquela época em que, em território nacional, eram realizados os, já extintos, campeonatos brasileiros de futebol profissional (mesmo que em algumas ocasiões nem tão profissionais assim)?
O finado Brasileirão era o assunto mais popular entre as rodas de amigos. O vencedor malhando o perdedor e este se defendendo como podia. A expectativa pelo próximo jogo. A total incerteza: Quem será o campeão?
Havia, naquele tempo, uma enorme expectativa para os jogos decisivos. Eram dias inteiros de conjecturas e projeções. Os pais e avós nos contavam histórias de edições anteriores, ressaltando essa ou aquela característica dos times. E vejam bem, as especificidades eram dos clubes e não dos atletas. “O Botafogo é a escrita do Flamengo”. “O Flamengo é time de chegada, na final sempre dá trabalho”. “O Fluminense era uma máquina de jogar bola”. “Em clássico, quem está pior no campeonato acaba ganhando”.
Faço aqui um pedido àqueles de outros estados que me perdoem, mas como bom rubro-negro que sou e de uma família que tinha sua vida ligada à cidade do Rio de Janeiro, eram essas coisas que ouvia. Tenho certeza que vocês serão capazes de lembrar-se do que seus pais e avós contavam.
Até que chegava o dia do jogo! O país inteiro parava para ver o que aconteceria dentro daquelas quatro linhas durante mais ou menos 90 minutos. Afinal tudo poderia acontecer! Era a essência do imprevisível!
O jogo era um reflexo da humanidade. Estava ali o jogador frio, que não sentia a pressão, o bruta-montes, o que se doava em campo e corria como nunca, o que amarelava, o que crescia, o que fazia o que podia, o que fazia o que não podia (e nem sempre era expulso por isso), o que fazia questão de não aparecer e o que fazia de tudo para aparecer.
E quando acabava? Era uma catarse coletiva. Jogadores e torcida vencedores em estado de êxtase. Uma volta olímpica num estádio lotado, consagrando a equipe campeã. Muitas vezes nem os uniformes estavam mais presentes. Era charmoso. Era histórico. Era heróico. Era épico.
Hoje isso não existe mais. Assassinaram o Brasileirão, aqueles que “entendem de futebol”. Trocaram tudo o que descrevi acima por um sofrimento em tediosas doses homeopáticas denominado “pontos corridos”. E os tais “pontos corridos” foram instituídos sob a égide de diversos argumentos.
O primeiro e deles é a justiça. Parece-me que segundo os tais “entendedores de futebol”, no sistema atualmente adotado a equipe que ao final recebe a alcunha de campeã é aquela que tem maior regularidade durante o interminável evento esportivo, e isso por alguma razão seria mais justo. Este, a meu ver, é um argumento falho e simplório por diversas razões. Vou expor aquelas que considero mais relevantes: O termo “justiça” diz respeito, de maneira mais simples, à igualdade. Justo é aquilo que é equitativo, o que por óbvio é totalmente contraditório com o conceito de competição, onde o objetivo é determinar em um grupo, o melhor em determinada tarefa, ou seja, aquele que, definitivamente, não é igual aos demais.
Argumentarão alguns que a equanimidade deve existir nas oportunidades dadas a todos os participantes, o que torna o argumento ainda mais simplório, uma vez que no sistema de “mata-mata” quase sempre existe uma etapa de “pontos corridos” que o antecede. No fundo, o que acontece é que com o sistema atual não se tem o momento decisivo. A hora em que tudo se define. Em que suamos frio e o coração bate mais forte. Temos a tal “justiça”. E contente-se com isso.
Outros defenderão o argumento de que temos 38 finais ao longo do torneio. Pergunto então, quantos sentiram algo meramente parecido com o que descrevi acima quando na 3ª rodada do campeonato em curso o Figueirense venceu o Atlético de Goiás por dois a zero. Mais ainda, pergunto quantas vezes durante o curso do campeonato, que na data em que escrevo este texto tem 31 rodadas disputadas, algo parecido acometeu os torcedores de qualquer agremiação? Sejam honestos consigo mesmos.
Há também o pretexto econômico. Segundo os “entendedores” o sistema atual possibilita que os clubes façam planejamentos melhores, que terão renda durante todo o ano, que com isso terão elencos melhores e, por conseguinte um nível técnico maior no campeonato como um todo.
Pois bem, de 2003 até hoje, eu não consigo enxergar qual clube brasileiro faz qualquer planejamento minimamente decente. E antes que alguns torcedores surjam aqui como os únicos heróis portadores da bandeira do planejamento, saibam que o São Paulo Futebol Clube (ícone máximo do planejamento e organização) foi o 2º clube com maior prejuízo no ano de 2010 segundo estudo do Itaú BBA com dados da consultoria BDO RCS. O mesmo vale para Fluminense (8º), Vasco (7º), Grêmio (6º), Cruzeiro (5º), Santos (4º), Corinthians (3º) e Palmeiras (1º). No fundo, vale para todos, mesmo os não citados.
Prossigo: não entendo a razão de o clube somente ter receita quando joga. Qual a razão para que os clubes que eventualmente não participem dos jogos decisivos não recebam uma parte dos rendimentos da fase final? Seria neste caso excesso de planejamento e organização?
Gostaria de fazer agora outra pergunta: Quais os eventos esportivos mais rentáveis mundialmente falando?
Copa do Mundo FIFA? A Champions League? NBA? NFL? NHL? Major League Baseball? A Eurocopa? Todos os torneios de tênis (apesar de existir um ranking por pontos)?
Eu tenho a impressão de que se há uma lista, a maior parte dos eventos mais rentáveis são mata-mata, mas cabe investigação.
Sendo assim, o argumento de que pontos corridos dão mais dinheiro me parece no mínimo ingênuo.
Isso sem falar que no atual “Brasileirão” – uma espécie de campeonato neerlandês de futebol masculino, só que com times brasileiros – as únicas rodadas que realmente interessam são as 5 ou 6 últimas. Fora os fatos de que no início do torneio já sabemos mais ou menos o que vai acontecer, e pior ainda, existem, na atual configuração, no mínimo 4 campeões brasileiros (porque a diferença entre o 1º e o 4º na prática é nula).
Ah, ainda existe a desagradável peculiaridade de o 1º colocado receber o troféu e as medalhas com seus atletas elegantemente trajados em seus ternos feitos sob medida em uma festa nos moldes da FIFA, promovida pela CBF (que não necessita quaisquer críticas mais elaboradas) onde somente as figuras mais “ilustres” estão presentes. O torcedor? Aqueles, e somente aqueles, que possuem televisão por assinatura podem assistir. Sem catarse, sem emoção, sem choro, sem alívio, mas com “justiça” e dinheiro no bolso. Algo sufocantemente europeu.
Num mundo onde o “assunto mais comentado no boteco” foi substituído pelo Trending Topic, nada mais natural que aquela característica do clube seja convertida em “planejamento” e o imprevisível dê lugar à “justiça”.
Extirparam a incerteza, e com ela toda a graça e emoção, do campeonato brasileiro.
Mas dê um “curtir” nos que “entendem de futebol” e comemore com seus amigos torcedores pela twitcam todos trajando suas camisas dry fit. Ou, em caso de derrota, xingue muito no twitter mas não no estádio. Caso contrário você poderá estar cometendo bullying.
Haja saco!
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